terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Música e Alzheimer V

A situação está se complicando. Embora ainda permaneça suas lembranças musicais, tocar o teclado tem sido muito difícil para ela.
A todo momento preciso colocar suas mão, especificamente seu dedo indicador sobre as teclas e, segurando seu dedo começo as canções que costumamos tocar.

Para se ter uma ideia, ela chega acompanhada de sua assistente. Eu a recebo na porta, estendo as mãos para ela que as segura e entramos. Aponto para ela na cadeira que fica em frente ao teclado. Imediatamente ela senta e começa a tocar. Aproveito esse início e toco com ela. Em seguida passo a colocar suas mão como relatei anteriormente.

Tenho dado tempo para ela tocando suas canções preferidas: El dia em que mi quieras, Solamente una vez, e alguns solos clássicos de violão como: Romance de amor; Bourré de Bach. Ela escuta aparentando certo prazer. É comum estarmos assim e subitamente começa a tocar suas canções no teclado fazendo com que eu passe a acompanhá-la novamente.

Sua dificuldade de deglutição começa a aparecer com frequência, assim como sua dificuldade de locomoção. Tenho pensado em algum momento trabalhar algumas canções de seu gosto usando fones de ouvido.

É isso. A música continua.

JH

sábado, 28 de novembro de 2009

Música e Alzheimer IV

Há muito não escrevo sobre este caso, onde, a lembrar, atendo uma pessoa na faixa dos 70 anos com Alzheimer. De uns tempos para cá as melodias que ela costuma tocar ( Besame mucho, El dia que me que mi quieras, Solamente una vez, entre outras) para serem executadas, precisam que eu pegue a mão dela e inicie as músicas. Rapidamente volto para meu violão e a acompanho. Deixo de lado as pausas entre uma frase musical e outra (as antecipo) para não dar tempo para ela esquecer a frase seguinte.

Na verdade ela não esquece a frase. A frase musical ela consegue cantarolar. Ela tem esquecido a digitação das notas no teclado. Quando acaba de tocar ou percebo que está se perdendo, tenho tentado antecipar nossa pequena melodia (temos um mote melódico simples binário que nos serve como referência de nossa relação) e tocamos como finalização.

Ultimamente tenho tentado uma outra "estratégia". Espero mais um pouco, ou seja, ficamos sentados, ela de frente para o teclado eu com o violão ao seu lado. E peço que ela toque: _ M. toque! Toque M. Aponto para o teclado. E ela tem conseguido iniciar a tocar. Porém toca sempre o nosso mote melódico. Quando peço uma música específica do nosso repertório ela não consegue.

E assim vamos indo

domingo, 18 de outubro de 2009

Educação Musical - Palestra

domingo, 2 de agosto de 2009

O Petróleo tem que ser nosso. A última fronteira.

Fiquei muito feliz com convite para musicar e fazer a direção musical do documentário: O Petróleo tem que ser nosso - A última fronteira, dirigido por Peter Cordenonsi. Ele conseguiu fazer com que uma hora de relatos, argumentos, críticas, ideias e sugestões sobre o mesmo assunto se transformasse em algo bom de assistir, num documentário emocionante que ainda ofereceu a possibilidade de informar, elucidar pontos até então bastante obscuros sobre esta questão.



A música num filme deve soar de forma sutilmente percebida. E assim está sendo neste documentário. As músicas participaram junto das imagens sem interferir, sem serem percebidas, mas com certeza participaram da emoção demonstrada pela plateia. Parabéns ao Peter e aos produtores do evento a Sindipetro-RJ, AEPET, FNP (Frente Nacional dos Petroleiros, MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e uma série de outras entidades da sociedade brasileira,que investiram neste projeto. Abaixo segue a música do documentário.






sexta-feira, 17 de julho de 2009

Michael Jackson - a imortalidade do infante

Estava por aí, assim, como quem não quer nada, distraindo meus pensamentos que teimam em se dirigir para as lembranças do passado e para as utopias futuras. Lembrava Michael Jackson e da época que curtia Jackson Five e seus sucessos românticos; Ben, I'll be there, entre outras canções. Percebi, nessa história exposta na prateleira midiática, não a musical, mas principalmente a pessoal (embora ambas estejam mixadas), uma criança imortal tentando sobreviver atravessando o tempo, o medo (da morte) e a saudade de viver. Não sei (ou sei) onde Michael ainda poderia ir. Não teria a criança alcançado sua máxima possibilidade de existência? Manter a imortalidade do infante é um jogo perigosamente prazeroso. Não sei se o Michael (pareço íntimo) percebia este perigo. O esgarçamento plástico das máscaras de sua face constantemente moldada, o Peter Pan na "Terra do nunca", a redoma antisséptica de vidro, pareciam, na verdade, a necessidade de perpetuação de sua imagem infantil nos espelhos de sua lembrança,. Michael ainda era o mesmo menino do Jackson Five. A criança suportou o máximo impossível da sua capacidade de existência.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Música e Alzheimer III

Passo a entender que não devo ficar lamentando memórias perdidas. Hoje, por exemplo, no início de nossas atividades musicais, parecia que as melodias estavam vivas em sua memória. Começamos a tocar nossas introduções com toda desenvoltura "possível". Porém, em menos de cinco minutos as falhas voltavam a surgir. O teclado à sua frente nada significava. Como já mencionei na postagem anterior, peguei o indicador de sua mão direita para iniciar as melodia. Assim, como se um empurrão estivesse sendo dado num carro para o motor voltar a funcionar, voltávamos a tocar até uma nova parada. Me parece que não há esquecimento das melodias, pois ela as cantarola em "boca qui usa". Creio que ela começa a esquecer o objeto, teclado. Ou, talvez, esqueça de que precisa fazer o movimento com as mãos para tocar. Enfim, não sei ainda precisar. Mas uma coisa é certa, as melodias que elegemos estão presentes em seus arquivos pessoais.

As técnicas adquiridas por ordem das necessidades, com o tempo, passam a ser utilizadas, inseridas dentro dos nosso processo musicoterapeutico. Outra passagem interessante, é quando percebo que uma certa estagnação (normal em todos nós) se instala, convido-a para uma pequena volta. Pego em suas mãos e passeamos até a sala de espera. Ali, pego o violão, toco algumas músicas e retornamos a sala. Ao chegarmos a sala, olha o teclado e faz o seguinte comentário: - Que belo, hein? Nos sentamos novamente e passamos a tocar como se fosse a primeira vez. Ainda há prazer; o trabalho continua.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Música e Alzheimer II

É o terceiro ano de trabalho. Portanto, tenho assistido a evolução da doença entre os altos e baixos da motivação por parte da paciente. A motivação, de ambas as partes, é muito importante para a continuidade das atividades. No momento, tenho necessitado auxiliar em colocar a mão da minha paciente sobre os teclados, pois ela passou esquecer o que está fazendo ali sentada. Seguro seu dedo indicador e começo a tocar algumas melodias, depois de iniciadas ela segue tocando até uma próxima parada.

Constantemente peço que ela me olhe nos olhos, percebo que de certa forma esse procedimento a deixa situada em nosso espaço. Quando, depois de 20 minutos tocando, percebo um certo cansaço, faço uma pausa, dou uma pequena volta com ela, sento-a num outro lugar da sala, toco um pouco de violão. Depois retornamos o trabalho no teclado como se fosse a primeira vez. E assim seguimos nossas sessões.

JH Nogueira